sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dia da Consciência Negra


Hoje dia 20 de novembro comemora-se o Dia da Consciência Negra. Entre críticas e conquistas, entre resmungos e reflexões passa-se mais um feriado calorento aqui em São Paulo. Sou mestiço, mulato, afro-descendente. Não posso deixar o dia passar em branco, sem trocadilhos marotos é claro. Afinal, sou pouco luso por um avô, um pouco preto por uma avó e um pouco índio bugre de outro avô que veio do meio do mato das Minas Gerais. Impossível não pensar em quem marcou essa data: Zumbi dos Palmares. Hoje herói, construído a partir de um debate de anos, teoricamente morto em 1695. Cantado em sambas, por bambas e quilombolas dizem teve seus escravos.

É bom ter essa perspectiva em mente. O mundo não é povoado de santos. E a sobrecarga de sofrimento do passado, não limpa nossos pecados. O tráfico negreiro lá da costa da Mina, de Angola desembocando aqui no Brasil teve ajuda de tribos guerreiras no outro lado do Atlântico. Aqui me pego pensando, a luta, a conquista, e o debate das perspectivas do negro como elemento ativo na história desse país perpassa por uma série de montagens e discursos. Prevalece na perspectiva de luta, a opção de debate do Movimento Negro. Mas que por si só, não resolve as complexidades de inúmeras questões. Inúmeros forros tiveram seus negros. E aqueles homens e mulheres coisificados por um sistema brutal repetiram o modus-operandi de séculos de uma cultura escravagista. Nesse nosso brasilzão último a dar cabo da escravidão no mundo...

Essas perspectivas nos legam uma visão, que se coloca preponderante quando se analisa a problemática das questões. E se uma bizarra cordialidade sensual proposta por Gilberto Freyre foi aceita anos e anos, é por que serviu bem a determinados interesses. Ser crítico deve ser um compromisso de relevância para se discutir a questão do empoderamento, a luta contra o racismo que inúmeros vivem por dizer que não existe. Deve ser um norte para se ver a força criadora de tantos quilombos que se ergueram nessa terra adentro. Tem que ser nossa força para poder ensinar aos nossos alunos que a matemática surgiu no continente africano, não como exotismo, mas como elemento identificador.

Devemos lembrar de nossos preconceitos mais introjetados ao nos por diante da perspectiva de valorização da mulher negra e no debate de cotas (que de tão complexo aqui daria pano para inúmeras postagens). A história da escravidão no Brasil e da política racial, o descarte dos negros pelos senhores de engenho, dentro de um plano de “embranquecimento” da nação com a vinda dos trabalhadores imigrantes, se constitui também em uma história do poderio das elites e oligargas que nunca largaram o osso.

O que dói é a perspectiva de vários em buscar achar “O Negro”. Esse mesmo que não existe. Idealizado. Homogêneo. O que existe são “OS” homens e mulheres negros. Ativos, protagonistas, criadores, bem diferentes das personagens sem personalidade, nome ou rosto, da velha historiografia. E por mais que nosso país mestiço ainda tenha uma elite que se coloque como branca, isolando-se em seus casulos de cristal, somos maioria, independente de qual espaço você ocupe na barra identificadora de cores. Anote, ser negro é identificador social.

Ainda que insista em se tratar por minoria, o que se vê é que somos um país mestiço, de características múltiplas e infinitas polifonias. A luta, por restituição irá perdurar por anos a meu ver, com inúmeros detratores. O débito que a sociedade tem com os negros deve ser saldado de alguma forma. E eu não vou bancar o cientista-político-mágico de dar minha teoria. Por mais do contra que inúmeros se coloquem, essa pauta prosseguirá, e desses embates vem o refino, uma melhor elaboração.

A data é para se rememorar todas as trajetórias. Ver quantas Zezé Mottas viveram domésticas e escravas em novelas da Globo reforçando o estereótipo. Ver quantas Camilas Pitangas e Taís Araújo são protagonistas e destaques nas novelas atuais, por personificarem uma nova classe média. Sim, a luta perdura e o capital não é cego de deixar isso passar batido. O empoderamento e a conquista social são camuflados sob o signo do lucro, que no resultado da equação é “você é o que você tem”.

Essa semana tive a oportunidade de ver uma exposição do grande historiador Marcos A. da Silva, que relembrou um trecho de José Lins do Rego em seu livro “Menino de Engenho”:

“Restava ainda a senzala dos tempos do cativeiro. Uns vinte
quartos com o mesmo alpendre na frente. As negras do meu avô,
mesmo depois da abolição, ficaram todas no engenho, não
deixaram a «rua», como elas chamavam à senzala. E ali foram
morrendo de velhas.(...)O meu avô continuava a dar-lhes de
comer e vestir. E elas a trabalharem de graça, com a mesma
alegria da escravidão. As suas filhas e netas iam-lhes
sucedendo na servidão, com o mesmo amor à casa-grande e a
mesma passividade de bons animais domésticos.(...) A senzala do Santa-Rosa não desaparecera com a abolição.(...) Quando veio o 13 de
Maio, [ os escravos] fizeram um coco no terreiro até alta noite. Ninguém
dormiu no engenho, com o zabumba batendo. Levantei-me de
madrugada, para ver o gado sair para a pastagem, e
encontrei-me com a negrada, de enxada ao ombro: iam para o
eito. E aqui ficaram comigo. Não me saiu do engenho um negro
só. Para esta gente pobre a abolição não serviu de nada. Vivem
hoje comendo farinha seca e trabalhando a dias. O que ganham
nem dá para o bacalhau.”


Por mais que o texto seja a mais pura literatura (e que tenha sido editado por mim), perpassa um gosto bilioso de que “as coisas mudaram para que continuassem as mesmas”. O que o dia de hoje me propõe é a quebra dessas "continuidades" históricas.

Para não ficar no amargor. Quero listar uma porção de favoritos meus, nacionais e internacionais que me dão peso a pensar o que sou e de onde vim. Vai meu “Salve!” para:

Meus pais. Meus irmãos, cunhadas e cunhado (japa!) e sobrinhos. A meus avós que eu nunca esqueça da essência de ser o que sou. Machado de Assis, Coltrane, Cartola, Mano Brown e Racionais Mcs, NWA, Public Enemy, João Cândido, Nelson Mandela, Stephen Biko, Assata Shakur, Stuart Hall, Jamelão, Malcom X, Martin Luther King Jr., Rosa Parks, Black Panthers Party, Bob Marley, Rainha Zinga, Tony Tornado,Cauê Nascimento, Cristiano Vicente, Viny Rodrigues, Tim Maia, Jorge Ben, Luís Gama, Teodoro Sampaio, João José Reis, Billie Holiday, Nelson Triunfo, Múmia Abu Jamal, Bad Brains, Gil Scott Heron, Cruz e Souza, Geraldo Filme, Milton Santos, Confronto, Robsons da Bahia, Feijah, Dead Prez, Moisés da Rocha, Katon do Hirax, Spike Lee, Alex Haley, o grande e inesquecível Mussum, Originais do Samba, Living Colour,Vladimir do Corinthians, Robert Johnson, Chuck Berry, Little Richard, Ella Fitzgerald, Mistifier, Tommie Smith e John Carlos e á todos os irmãos e irmãs que continuam no combate.

Assim sendo, que esse feriado não vire mais um dia do índio. Que sejamos mais e mais Malês e Nagôs, revoltados. Sei que sôo até ingênuo fechando o texto dessa forma, mas que possamos ir a praia, e ainda assim façamos uma reflexão. Do que se ganha e o que se perde e de que posicionamento tomamos a cada passo. Se reiteramos velhos discursos ou nos permitimos novas perspectivas. Independente da nuance ou do que você responda no formulário do IBGE.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

you must fight to live on the planet of the apes !



Trabalho bem legal feito pelo Heath Killen, um ilustrador australiano cheio de criatividade. Conheça mais em madebyhk.com!

domingo, 1 de novembro de 2009

A Uniban, a mini saia e os moralistas

Eu evito dar trela para debates acalorados que bombam via Youtube e noticialecos de tv, mas foi impossível não associar o que aconteceu no dia 30/10 último, como outras tantas questões importantes. O ensino no Brasil está falido. Fato. Triste e incontestável. E a cada dia creio que seja uma situação irreversível. Por mais que eu tenha uma visão quase conspiratória sobre (a de achar que isso serve a alguém e alguma coisa) o xinga xinga da Uniban só demonstra a lama educacional e pior, o estágio cultural de atraso que muitos estão sendo formados.

O que se mostrou nos vídeos não foi apenas o julgamento moral, foi a carnavalização do escárnio, da baixaria, do vulgar não na pessoa da garota em questão, mas do nível educacional superior. A Universidade (aqui falo de uma forma bem genérica mesmo) em muitos cursos tornou-se um rolê, uma balada, um celeiro propício para retardados, onde quem paga consegue um diploma. O déficit cultural é tétrico ao chegar na graduação e parece piorar com o correr dos anos. Essa extensão do colegial privilegia um ambiente onde o campo das idéias seja deixado de lado em contraponto a cursos tecnicistas de inclusão no mercado de trabalho. O macaco faz e não constesta é assim que sempre foi e assim que será.

Pior que as coisas me parecem embricadas numa percepção muito machista e atrasada. Quando dava aula me peguei pensando sobre a existência da “periguete”. Da garota do bairro, sexualmente ativa e decidida, que é boa para liberar as necessidades primais dos rapazes (e dela também), mas não é moralmente boa para se namorar segundo o que meus próprios alunos falavam. Trazendo isso na perspectiva do mundo do consumo e do capital, a profissão mais antiga do mundo, sempre foi hostilizada e perseguida, taxada de desviante e desvirtuante, mas sempre esteve aí. Os cruzados dos bons costumes sempre perseguiram essas mulheres sem nunca vencê-las. Elas estiveram na cama de estadistas, de papas, pastores, de maridos, de quem quiser que pagasse. Como se no mundo as ditas “opções” fossem reais e para todos. Como se tudo fosse simples como pegar um “jornal amarelinho” na segunda feira, 5 da manhã e esperar uma fila de 500 nomes para tentar uma vaga de emprego. Mais deprê ainda quando o discurso é introjetado pelas próprias mulheres. Que muitas vezes conclamam uma “unidade” de classe ou categoria, que não existe. Que fazem com que atirem contra o próprio pé. Não conseguem perceber que estão sempre em posição desfavorável, seja no mercado ou na vida. E que tal atitude só mantem as coisas como elas estão.

O que eu acho curioso é que o molde “exemplar” apresentado pela "cultura" vigente, é a mulher bonita, sexualmente atraente. De uma deusa do sexo que se prostre a um mundo privado de um marido provedor. Isso está nas novelas, nos programas de fofoca, nos sonhos de tantas que copiam cortes de cabelo de revista, e roupas de novela.

A garota em questão é o protótipo disso. E na verdade não espero grandes articulações dela, se de um lado a horda dos que ofenderam representam um déficit cultural alarmante, ela também representa a outra ponta desta questão. E aí que o problema toma mais corpo, pois nela percebemos a hipocrisia. De uma geração que chega ao século XXI, com valores recém saídos do XIX. A geração dos anos 2000, quer bens de consumo, de maridos provedores e esposas profissionais. Tudo que esteja fora desse ambiente moralista e arranjado é descartado. Como se a vida fosse simples e harmoniosa.

A garota é desejável. Talvez cobiçada pelos rapazes e invejada pelas colegas. Tem coragem (ou a falta de noção) de ser o que é e por isso representa o desvio e deve ser exposta a humilhação pública. Por mais que a moça seja tão tapada quanto a barbárie, o mais triste dessa história é ver jovens alardeando um discurso velho e atrasado. Começa-se com as mulheres. Depois passa-se as minorias. E assim caminhamos para o que? Para onde? Uma vida feito uma propaganda de tv? Anexo abaixo desse comentário algumas opiniões interessantes que estão no Youtube. Ouça o professor, o aluno, e o "teórico". É interesse pensar. Eu tomei minha posição. Escolha a sua.






quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um pouco sobre a configuração espacial da cidade de São Paulo.

Como nasceram as periferias.



Este texto faz uma analise histórica, política e sociológica a respeito dos conflitos urbanos ocorridos em São Paulo, no final do século XIX e inicio do século XX, mostrando o expansionismo da lógica capitalista de organização da cidade, que resultou na constituição do que hoje chamamos de periferias. Através desta análise, talvez possamos entender melhor como se configura o que chamamos hoje de favelas.

A cidade de São Paulo se torna o pólo da produção de mercadorias e do comércio, a partir do momento em que se inicia a transição do modelo de produção com mão de obra escrava, para o modelo de produção com mão de obra assalariada. O reflexo desta transição se deu de várias formas: econômica, político-institucional, social, etc. Mas esta análise parte do ponto de vista da crise do espaço urbano, mapeando desta forma a constituição de uma nova ordem social.

Na relação, escravo – proprietário, onde a dominação se dava de forma clara e os limites entre as duas classes eram muito bem definidas, o escravo era visto como propriedade do senhor dono das terras, sendo assim, este era responsável por manter a sua “máquina” de produção funcionando. Para isto, era necessário manter este corpo-máquina com uma dose mínima de alimentação, tentar livrá-los de doenças e fornecer a eles uma forma de moradia. O escravo morava na fazenda do senhor, e não se caracterizava como um indivíduo, só conseguindo alcançar este status, quando se tornava membro de um quilombo ou quando conseguia comprar sua carta de alforria.

Com a abolição, os escravos foram jogados a sua própria sorte. A partir daí, surgiu à necessidade de se utilizar mão de obra assalariada, o trabalhador livre. Mas o trabalhador livre, até então era uma minoria nas cidades, então foi preciso construir este arquétipo, fisicamente e ideologicamente. Se não era mais possível – fazer trabalhar – com a força da chibata, a nova ordem deveria se encarregar de produzir este trabalhador que tivesse somente a sua força de trabalho para ser vendida. Nem o caipira (considerado preguiçoso), nem o negro ex-escravo se transformaram imediatamente neste novo trabalhador livre. Sendo assim, os fazendeiros contrataram o imigrante europeu, pois as políticas da época eram vantajosas neste sentido. O governo da província pagava as passagens destes imigrantes. Por outro lado à idéia de se utilizar mão de obra “civilizada” atraia muito os fazendeiros, pois não era possível romper repentinamente com a carga ético-política da escravidão. Neste contexto, o embate entre “barbárie versus civilização” ainda se fazia presente na elite dominante da Primeira República Brasileira (1889 – 1930).

Neste contexto, pela primeira vez no Brasil, a grande maioria dos trabalhadores (agora assalariados), passa a não mais habitar a propriedade do patrão. A nova ordem social implica numa re-definição do espaço social muito bem delimitada, onde cada classe sabe onde pode e onde não pode transitar. Os trabalhadores são empurrados para as margens das ferrovias, onde a maioria das fábricas se concentrava, e os seus bairros eram geralmente constituídos de inúmeros cortiços, zonas pantanosas e inundáveis, quase sempre com esgoto a céu aberto em uma paisagem que se contaminava também com as chaminés das fábricas. Enquanto os patrões habitavam as colinas arborizadas, em alamedas retilíneas e palacetes bem construídos.

Uma das diferenças mais significativas nestes dois universos, era a forma como os moradores se relacionavam com o espaço público. Nas zonas pobres, a maioria dos espaços, eram públicos ou semi-públicos, botequins, campos de futebol e a própria distribuição espacial dos cortiços, que geralmente eram constituídos de cômodos-leitos, banheiros e tanques de lavar roupa para o uso de todos os moradores, e um corredor ou pátio central. Por outro lado, Nas áreas ricas, os cômodos eram devidamente separados e funcionalmente organizados, não há muitas áreas de convivência coletiva e as mansões se fecham em muros e grades que separam a íntima vida social. Este processo de separação e diferenciação de cada bairro faz com que estes bairros tornem-se mais do que lugares no espaço da cidade, eles assumem as características dos grupos sociais que os ocupam e se identificam com eles. É como um efeito psicogeográfico, onde as características de um lugar organizado conscientemente ou não influenciam diretamente sobre o comportamento dos indivíduos que o habitam.

Todas estas transformações visavam estabelecer uma ordem dominante no contexto urbano-social, e se esta ordem se tornasse homogênea isto de certo modo garantiria a reprodução do modelo político, social e econômico vigente. Mas a forma de organização dos bairros proletários se contrapunha diretamente a está ordem, pois produzia outras formas de sociabilidade que valorizavam muito mais o espaço público do que o espaço privado e misturavam praticadas sociais distintas com a mistura de negros e imigrantes europeus (na maioria italianos, espanhóis e portugueses). O poder urbano por sua vez tentava reprimir ou transformar tudo que se diferenciasse da ordem social vigente, a ordem da classe dominante. A homogeneidade absoluta desta ordem era favorável à manutenção deste poder dominante, portanto tudo aquilo que diferia desta era considerado desvio e transformava-se imediatamente em objeto de intervenção. Esta intervenção se dá através de um discurso que estabelece o modelo ideal de cidade e cidadão, e através de intervenções diretas na vida destes cidadãos. Faz-se presente uma construção e estigmatização de determinados grupos sociais e estes passaram a ser considerados não adequados e conseqüentemente suas ações passaram a ser reprovada e assim se dá à eficácia do discurso. Um discurso de construção da anormalidade, que se assemelha muito com as idéias do filósofo francês Michel Foucault, onde há a consolidação de uma complexa rede de instituições de disciplinarização, e de mecanismos de vigilância, de papéis e exigências sociais que para manter o bom funcionamento da ordem vigente, constroem uma figura monstro-humano ou anormal, que precisa ser devidamente encarcerada e disciplinada. Foucault em sua análise desvela a formação do conceito de anormalidade decalcado na criança, e que por isso, foi alvo da educação e da tutela do Estado. Está idéia de Foucault, reflete também em outras parcelas sociais, e como vimos acima à disputa urbana do inicio do século XX, carrega alguns de seus reflexos.

Uma das formas de se combater os cortiços, eram as chamadas “vilas higiênicas”, que eram vilas que se diferenciavam dos cortiços por conter no interior de cada unidade as áreas de cozinhar, lavar, banhar e defecar. E cada habitação possuía mais de um cômodo contendo mais separações que o cortiço.
Os habitantes das vilas, não se diferenciavam em muito dos habitantes dos cortiços, eles também eram trabalhadores das fábricas, mas a partir da construção deste novo tipo de habitação, nasce uma separação ideológica entre estes moradores, os “cortiçados” e “moradores de vila”. Os cortiçados passam a ser caracterizados como “perigosos marginais”, enquanto os moradores de vila, são chamados de “pobres trabalhadores”. De um lado a miséria perigosa, baderneira, ilegal; do outro a miséria útil, explorada e permitida. As vilas eram totalmente submetidas ao tempo-trabalho, pois na maioria das vezes, eram construídas nos arredores das fábricas, portanto, a mesma disciplina da fábrica, vale para a vida privada.
A partir daí, inicia-se o processo de remodelação da cidade, onde proprietários, interessados na valorização de algumas regiões, juntamente com ações de especulação imobiliária. São construídas pontes, viadutos e praças redesenhando completamente alguns setores da cidade.

Deste modo, podemos traçar a história do surgimento da periferia nas grandes metrópoles como São Paulo, principalmente porque este conflito e estas contradições sociais ainda se fazem presentes hoje. A cultura dos cortiços deixou suas marcas nas favelas, e mesmo em escala menor, os cortiços se fazem presentes nas grandes cidades. Portanto a luta pelo espaço, é mais atual do que nunca hoje.


domingo, 25 de outubro de 2009

Minha recusa a banalidade - duas ou três palavras sobre a violência urbana

50 mortos. O saldo da Guerra civil no Rio de Janeiro. Fora aquelas mortes não contabilizadas. Fora um helicóptero destruído. Fora os policiais que deixam uma vítima agonizar por quase uma hora antes de morrer. Os casos são incontáveis. As experiências, inenarráveis. O que acontece nos becos e ruelas das grandes cidades do Brasil (e aqui o Rio de Janeiro e São Paulo ganham destaque) fazem parte de um roteiro brutal e insano, de um cotidiano que está permeado pelo medo e pela insegurança.

Muito foi e está sendo dito sobre as raízes destas questões: crime organizado, tráfico de drogas, pobreza, o abismo entre as classes sociais, as decisões administrativas. Estes são pontos absolutamente profundos e pertinentes, que demandam uma quantidade absurda de dados e pesquisa. Eu faço votos que os cientistas sociais brasileiro realmente estejam atentos a esta questão, e que concentrem esforços em dar algumas resposta a esta equação que até agora parece impossível de resolver.


Mas aqui eu vou tentar apenas escrever umas duas linhas sobre uma fragmento desta crônica. Nesta última terça, dia 20, o corpo de um homem cravado de balas foi largado numa rua perto do Morro dos Macacos no Rio de Janeiro. A cena causava espanto e curiosidade. O corpo já mostrava sinais de decomposição. As pessoas que ali passavam olhavam o homem; e ele assim permaneceu. O evento continuou até as autoridades cariocas resolverem que o circo devia ser fechado, e então retirassem o homem dali.

O assombro da cena está não na sua violência e terror, mas sim, na sua banalidade.

Hannah Arendt (umas das mais importantes intelectuais do século XX) escreveu um livro sob o título “Eichmann em Jerusalém”. Na obra, a autora apresenta sua visão do julgamento de Adolf Eichmann, notório criminoso de guerra nazista e um dos principais atores do genocídio perpetrado aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1961, ao ser encontrado e preso, Eichmann é julgado em Jerusalém por uma corte especial e então, em sua defesa, narra seu papel como um dos principais responsáveis pela arquitetura da logística dos campos de concentração com absoluta normalidade.

Arendt aponta a “banalidade” de Eichmann na medida em que este aparece apenas como uma peça de uma grande engrenagem. Um autômato que cumpria ordens. Arendt coloca o terror do holocausto, dos assassinatos em massa, da mecânica do extermínio, dentro de uma lógica de absoluta e fútil normalidade.

Duas são as considerações que quero colocar a respeito da relevância do texto de Arendt sobre nossa realidade, e em especial, sobre o caso que destaquei. A primeira está na banalidade de nossa violência cotidiana. A banalidade de “nosso” mal está no fato de que nem cenas de absoluto terror tem a capacidade de nos revoltar. Pelo contrário: elas se apresentam enquanto um fato pitoresco. Nos causam estranhamento e espanto. Mas não mais o terror. O cotidiano brutal narrado nos jornais – e que pode ser acompanhado ao vivo das janelas de casas e carros – dinamitou nossa sensibilidade.

A segunda ponderação é uma questão de postura. Arendt viu Eichmann como uma “peça” de um “sistema”. Dentro daquele contexto, Eichmann estaria desprovido de sua individualidade, e , obedecendo àquela “normalidade”, os atores sociais acabariam sendo sugados para uma espiral onde suas ações não são percebidas em sua totalidade. A alienação, neste sentido, se não tira a responsabilidade total dos atores sociais, ao menos atenua sua culpa.

Me coloco no campo contrário. Vejo aqui uma questão muito menos analítica, e muito mais de “postura” prática. Todos os atores sociais tem escolhas. E estas escolhas sempre estão condicionadas. Em maior ou menor medida, essa “banalidade” da violência que explode na televisão e nos jornais é interpretada, reinventada e reproduzida por todos nós. A mim, ela me choca, me revolta. Não posso permitir que a exceção se torne a regra.

O corpo daquele homem morto no carrinho de supermercado deve ser colocado no seu devido lugar: como o resultado de uma guerra civil brutal que está nos consumindo enquanto sociedade e enquanto seres morais. E este é o fim do poço.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Como aprendi a deixar de me preocupar e passei a odiar a Mostra


Outubro. De novo. 33. Mostra Internacional de Cinema. Sim, ela começou hoje. Mas, eu tinha umas palavrinhas ensaiadas. Posso?

Eu não nasci odiando a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Pelo contrário. Fui a muitas edições da Mostra. Lá pude conhecer os filmes do Oriente Médio (Gosto de Cereja de Abbas Kiarostami é um dos que mais me marcaram), lá experimentei a falta de ortdoxia de Guy Maddin. Conhecei Sukurov e sua arca. E tive uma das minhas experiências mais catárticas com uma obra de arte: Tempos de Lobo, de Michel Haneke.

Acontece que a Mostra não é mais um espaço onde aqueles que apreciam o cinema podem se reunir e ter acesso a filmes que nunca (ou quase nunca) seriam exibidos em circuito comercial. A Mostra de Cinema de São Paulo perdeu se caráter de promover acesso. Hoje, ela é um mastodonte que ocupa 25 salas de cinema e onde são exibidos mais de 420 filmes.

A Mostra ter aumentado de tamanho não é em si um problema. Não sou romântico. Não acho que os grandes filmes devam ser apreciado apenas nos cineclubes, onde apenas 4 fulanos pagam a entrada para ver o “obscuro filme daquele diretor turco”. O crescimento da Mostra é fator positivo para a produção e acesso de filmes no Brasil. O que mudou porém é o significado social que a Mostra adquiriu. Ela virou um role. É legal ir a mostra, simplesmente porque... bem, é legal ir a Mostra.

Em quinze minutos de passeio pela Augusta, nós vamos ver o tipo: ali. O cara comprou todo o “merchan” disponível na central. Acordou cedo e garantiu seu pacote de 40 ingressos. Leva a tiracolo o guia da Mostra e o da Folha. Usa um caderninho, e no fim das sessões, dá notas aos filmes e marca um grande “X” naquele que acabou de ver. Nas filas, sempre está sozinho. Quando não está sozinho, está contando vantagem dos filmes que já viu antes de “todo mundo” para seus pares. Sim, o clima é de competição. Quase sempre usa camisetas de Mostras antigas - de 1994, 1997, 2000 – para mostrar sua assiduidade. Nos dias de buscar o ingresso das sessões mais concorridas, acorda as 5:00 da manhã e está na Paulista às 6:00. Esse grupo tomou de assalto a Mostra.

Antes, essa praga das transformações e reaproximações do capitalismo eram minoria. Eram. Hoje, são ampla maioria. Em maior ou menor medida, os Tietes da Mostra são onipresentes. Em 2007 tentei ir em alguns filmes. Havia limado da minha lista aqueles filmes que iam estrear, e também, aqueles que haviam ganhado prêmios. Assim, sobraram uma dúzia de filmes que queria ver. Não tive sucesso em nenhum. Todas as sessões lotadas. Todas. Sem exceção.

Ir a Mostra de Cinema de São Paulo hoje é para ver e ser visto. O cinema virou segundo plano. Cabe agora o rancor por ter visto um evento tão interessante ser assim tomado. Mas é. O inescapável.

Mas a Mostra é assim: agora eu adoro odiá-la.

sábado, 10 de outubro de 2009

Andaime o Podcast da Apes!

"Andaime - O Podcast da Revista Apes!"

Enquanto o programa oficial é finalizado para estar aqui em breve, editamos alguns trechos de 2 programas piloto que não tivemos coragem de colocar no ar. Pois bem, o tempo passa o quesito vergonha na cara se esvai...

De qualquer forma algumas explicações tem de ser postas. Esses primeiros foram pensados para serem testes ou seja, foram gravados de forma rudimentar e não tínhamos tanto primor com o "linguajar". Portanto, se você tem ouvidos ou humores delicados, recomendamos a NÃO audição do programa, estando você por sua conta e risco.

Outra coisa, tinha-se a idéia de web-radios na mente, onde além das pautas (quando existiam) colocávamos músicas. Como para algumas pessoas é um saco ficar ouvindo música que não gosta enquanto o programa carrega no streaming, optou-se por dividir em 4 blocos, onde as músicas tocam sem parar ao fim, portanto se você não tiver interesse em absorver nosso sublime gosto musical é só pular para o podcast seguinte e se antenar nas bobagens que falamos.
Se quiser os blocos do programa estão disponíveis para baixar aqui

OBS.: Como algumas pessoas não estão conseguindo ouvir o podcast, decidimos deixar os blocos disponíveis para download gratuito. Pedimos desculpas aos amigos, e visitantes.
Divirtam-se.

Programa gravado em 02/08/2009

Neste primeiro programa, rolaram as apresentações, explicações sobre nossas idéias, sobre quem é e o que faz na revista. Falou-se sobre Internet, Sasha Grey, modernices e modernagens. Nova Babilônia, Pós-modernidade, “coisas de designer”. Universidade, da Burgueose ao proletariado militante, futebol de ressaca,"twitter, facebook,poropó-poropó-poropó" mas principalmente “Por que Andaime?” O Background foi de Baby Huey and The Babysitters e de Duke Ellington e John Coltrane, que deixaram o ambiente mais agradável. Além disso músicas de:

Calistoga,Deriva, Desvio ou Deturpação,O Cúmplice,Sleeping People, Arab Strap,Pulling Teeth, Steve Von Till, Emicida, Te Voy a Quebrar, Distro, Iron And Wine, Twilight Sad,Converge,Hot Water Music.

Download por partes
(bloco 1 aqui )
(bloco 2 aqui )
(bloco 3 aqui )
(bloco 4 aqui )

Fiquem atentos e usem as barras de rolagem no player!



Na semana que vem, mais podcast, mais bagaceiragens, ofensas, baixarias!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Meant to Suffer

Os membros da Apes sempre se metem a dar opinião e colocar o bedelho em algo. Somos caras cheios de idéias, de bom gosto, quem nos acompanha sabe... Além disso, esse grupo de pessoas, ou “networking”, comporta um outra esfera mais estendida que são os amigos de amigos, que se tornam próximos em empreitadas (também conhecidas como roubadas) realizadas pela nossa gangue. Dá muita satisfação dessa forma quando se percebe o amadurecimento do trabalho de parceiros, e quando se dá conta do avanço em curto período.

O Meant to Suffer é um desses casos. Com duas demos e um período relativamente pequeno de existência, conseguiu provar que é possível desenvolver riffs interessantes, energia, e tornar atrativo um estilo musical que parece ser reduzido á formulas e construções óbvias. O grindcore parece ser muito propício a isso, pois vindo do hardcore-punk e com a muleta que o faça-voce-mesmo pode se tornar, muitos redundam-se a preguiça sem ousadia nas criações. Não é uma, mas são centenas as bandas mundo afora que só rearranjam ad-infinitum riffs em músicas idênticas, soando todas iguais e daí para diante.

Com a facilidade da Internet é simples baixar, ouvir, assistir o vídeo da banda e clonar uma estética, tentando agregar-se a um nicho ou estilo.



É por ir na contramão que sempre apreciei-os. A banda é basicamente sediada em Araras, interior de São Paulo. O interior paulista é histórico por ser celeiro de tantas bandas extremas. O Meant to Suffer é um exemplo disso, basta regatar que o vocalista Alcir foi membro do “Hinfamy” lendária banda de grindcore da região. De lá pra cá ele vem sempre se dedicando a expressão mais pesada e ensurdecedora do hardcore.

A demo em questão chama-se “Hiatus”, que casa perfeitamente com a temática desolada e deprê das letras. Sendo meio contraditório/sarcástico esse “hiato” (silêncio) praticamente não existe na audição dessa demo. No trabalho anterior o MTS executava de forma sublime um grindcore cru, com riffs não metálicos, muito mais hardcoreanos. Muito preciso como Assück mas ainda lembrando antigos momentos do Napalm Death. Por outro lado a forma de tocar, o estilo pessoal de cada um dos 4 cria uma “assinatura” da banda que a destaca entre tantas que querem ser o novo Pig Destroyer, o novo Brutal Truth...

A voz/guitarra de Alcir tem muita personalidade e junto da guitarra de Luiz fazem toda diferença por costurar, e fazer soar a banda como uma máquina. Nada sobra, tudo parece estar encaixado de uma forma que se percebe foi bem tramada, pensado em ensaios repetidos e analisados. As novas composições investem em diálogos com novas expressões do metal sem perder o pique. Existem ritmos mais lentos, mais cadenciados, partes menos diretas, mas ainda assim a banda consegue fazer tudo isso soar muito coeso. Nos apresentando climas soberbos que nos "envolvem" nesses temas, como se fosse um passeio de montanha-russa.

E aí que percebemos as músicas novas, como evolução das mais antigas. Completando o time, a dupla Gus e Rodolfo é perfeita sendo alicerce firme. Baixo e bateria vão erguendo um muro. Não como separação, mas como estrutura firme. É partindo dos dois, que vai se percebendo a banda como um construto, onde as melodias mais elaboradas e estratégicas podem desfilar, aparecer mais para os apreciadores e aficcionados do estilo.

A demo está disponível para download liberado e gratuito aqui . No myspace deles também existe o link para a demo anterior, altamente recomendada. A gravação de ambas não transmite 1% do que a banda é, não por desleixo deles, mas pelo próprio formato não comportar tudo que eles podem experimentar com mais horas de estúdio. Isso acaba sendo uma deixa, para se prestigiar a banda aparecendo nos shows onde tocam sempre excelentes e impactantes.


Serviço:



aperto de botão (fotos): Marcelo Fonseca

Num destes dias. A Noite





Aperto de botão: Thiago Zati

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Huxley, Dostoiévski e o meu mundo


Pela terceira vez, li o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Porém, a leitura teve frescor de nova. Não o lia fazia já uns bons 7 anos. Lembro quando peguei o livro na mão a primeira vez, no caminho óbvio pós-1984. Li este, e na sequência, outro clássico distópico: Neuromancer, de Wiliam Gibson.

Mas agora, as referências são outras. Livros bons são mágicos, eles se transformam, dada a nosso própria transformação. Ao olhar o mundo diferente, li o livro de maneira diferente.

A experiência de ler (e reler) Admirável Mundo Novo continua sendo atemorizante. De alguma maneira, diferente de 1984, Admirável Mundo Novo é um livro para ser lido um pouco mais velho, e não na adolescência. A razão disso está na percepção de que Huxley aponta os efeitos da massificação como questão principal do seu argumento, sendo que este é também o ponto central em nossa sociedade pós-industrial. Bingo! Esta é, talvez, a sacada máxima de Huxley: as democracias populares podem ser tão bem dirigidas e a liberdade pode ser tão completamente cerceada quanto o são modelos Fascistas.

O livro, para aqueles poucos que não conhecem, tem dois momentos específicos: um, em que acompanhamos Bernard: sujeito de alta casta na sociedade retratada no livro, mas que tem profundas duvidas quanto ao seu potencial. Sendo da casta mais alta, em uma sociedade completamente ordenada por este princípio, este caráter vacilante torna seu personagem um anti-herói. Sua personalidade é, em muitos momentos, pouco atraente. Durante a leitura, não existe empatia, pois a não conformidade de Bernard não está na rebeldia, mas sim em uma certa incompetência. O momento seguinte do livro se concentra em John, ou O Selvagem. Sujeito rejeitado tanto em seu grupo original, quanto na civilização, para a qual é arrastado por Bernard.

A dicotomia 1984/ Admirável Mundo Novo foi a tona durante minhas primeiras leituras. Era o embate entre o poder que domina pelo medo e pelo terror e aquele que domina pelo prazer e pelo condicionamento que dirigia meu olhar. Observar os diálogos, as posições e as referências a Shakespeare nos diálogos entre Bernard, John, Mustafá Mond, Lenina e Helmholtz estavam sempre, de alguma maneira condicionados a temática prazer/ medo, terror/ condicionamento.

Mas agora foi diferente: Huxley dialogou não com Orwell, mas com Dostoiévski e seu Crime e Castigo. E aqui, saindo do óbvio, acho que estamos mais próximos de um entendimento mais amplo de Huxley e de sua obra.

John e Raskólnikov vivem a mesma experiência: ambos se deparam - cada um por suas razões - a uma sociedade a qual não podem conviver. Cada um cria, dentro do seu (in)conciente, uma formulação própria a respeito do mundo que o rejeita. Ambos cometem um crime hediondo e ambos encontram a culpa e a vergonha. Cada um a sua maneira, procura um refúgio seguro. Um lugar de redenção.

Dostoiévski e seu cristianismo punem Raskólnikov com a Sibéria. Mas lá, este encontra o afago suave do perdão, e a oportunidade de poder olhar para sí mesmo renovado, em pé. A superação no sofrimento. A lição do tio Dostô é seu cristianismo otimista.

Huxley por sua vez, coloca John refugiado em seu próprio mundo, em sua solidão. Mas ao invés da redenção, John torna-se um freak. Afinal de contas, numa sociedade perfeita, organizada, e baseada no prazer, qual o lugar da dor? Como lidamos com o desgosto? Com a vergonha? Como nossa sociedade lida com as mesmas questões? Qual a resposta que encontramos?

Raskólnikov e John se automutilam, se apartam, correm para dentro de sí. Raskólnikov encontra o perdão. John encontra a espetacularização. Seu perdão não está aqui, mas apenas fora de sí. John acredita em Deus, mas não acredita em Jesus. Dostoiévski acredita em Jesus. e ponto. Huxley inverte Raskólnikov. Ao inverte-lo, só lhe resta a corda. Orwell acertou na União Soviética e na Alemanha Fascista. Huxley viu mais longe: viu no ontem o agora.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Breve reflexão a respeito do futebol.

Sou apaixonado por futebol e costumo acompanhar aqueles programas do tipo "mesa redonda" que cobrem as rodadas dos campeonatos nacionais. Nesta última quarta feira, eu assistia a um programa desses e um dos assuntos que estava em pauta na mesa de discussão era a respeito de uma festa que aconteceu no Esporte Clube Corinthians Paulista, em comemoração aos 99 anos de existência do clube. A polêmica toda girava em torno de um vídeo encomendado pela diretoria do clube, onde dois personagens batiam uma bolinha; um era o Gavião, simbolo não-oficial do Corinthians e o outro era um veadinho bem parecido com o famoso personagem da Disney, o Bambi, óbviamente vestindo uma camisa branca com listras horizontais preta e vermelha. A pergunta em questão era: Faltou ou não faltou ética ao Corinthians ao fazer e apresentar o vídeo? Esse tipo de provocação deve ou não ser feita? etc. A partir daí começaram todos a falar sobre postura ética, fair play, potencialização da violência entre torcidas, entre outras coisas. Mas toda discussão tomou um corpo extremamente conservador, porque os dinossauros-comentaristas, não conseguem entender que a violência entre torcidas, ética e fair play, não tem nada a ver com a rivalidade e a provocação entre clubes e torcedores.
O futebol é um dos esportes mais emocionantes, justamente pela liberdade que todos os envolvidos com ele tem (ou tinham) de provocar os adversários, zoar com os perdedores, etc. Não tem a ver com violência. As causas da violência entre torcidas são outras, talvez máscaradas por este discurso de senso comum, mas definitivamente são outras.
O conservadorismo no futebol vem crescendo desde quando os clubes se constituíram como empresas privadas, e o tal "boleiro", passou a ser um atleta-funcionário da empresa. A ascensão do capital esportivo configurou a morte da mágia do esporte.
Em um mundo conservador, políticamente correto, onde a biopolítica reina, é impossível concebermos jogadores tipo Dr. Sócrates, que dava entrevista fumando um cigarro após a partida e revolucionou a história do futebol com o movimento "Democracia Corinthiana" nos anos 80, ou Paulo César Caju que divulgava o ideário dos Black Panthers no meio futebolísticos nos anos 70. Porque agora o futebol é dos Kakás, Alexandres Patos, Caios (agora comentárista), entre outros bons moços. Edmundos, Romários, Vampetas e Edilsons não terão mais vez. Assim como na nossa sociedade cada vez mais chata, cada vez mais passiva e sem agitação ou qualquer tipo de enfrentamento, o futebol está se tornando um esporte sem graça, onde nem mesmo as piadas comuns entre torcedores e clubes estão tendo espaço sem que dezenas de pseudo-entendedores começem a apontar o dedo e dizer que: "Está errado, é anti-ético!". Anti-ético é transformar tudo em business, embalar e vender nossas paixões para nós mesmos, transformando-as em inofensivas.

Segue abaixo o vídeo em questão.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Torrente



Uma xícara de café e um cigarro. Os pensamentos ecoam pelas paredes sem quadros. Ela bate a cinza no cinzeiro que está em cima do criado mudo. No espelho quebrado, vê o gesto de seu braço: a ponta brilhante do cigarro faz um arco no ar.

“Sim, vagalumes!”.

Sorriu para si um riso seco. Ela pára, olha para o teto e respira: ouve os silvos do ar enchendo os pulmões. “Estou ficando doente”.
Uma tragada na bituca, um gole no café frio. Mais uma baforada lenta. O quarto se enche de fumaça. “A janela está fechada”. Todas estão. Suavemente, Ana põe a xícara de café ao lado do cinzeiro. Pega um copo d'água e leva a boca. Molha os lábios, e depois, um gole generoso. O calor é insuportável. Uma gota de suor que lhe escorreu da testa lhe fica presa no canto da boca. Sente o gosto amargo-salgado e cospe no chão sujo do quarto. A televisão está ligada e ela baixa a cabeça em direção a tela. “Qual é o nome deste filme mesmo? Ah sim....”. A sirene da ambulância ecoa na noite sem estrelas: “Maldita insônia”, pensou, apagando o cigarro na madeira nua.
Espremida no canto da cama de casal, só um pequeno espaço lhe resta: perna pede para o chão. O homem grande que está deitado ali não lhe deixa muita alternativa. Ela se espreme, respira fundo e fecha os olhos. A cama se mexe. O copo cai no chão de taco escuro mas não quebra.
Num lampejo, Ana lembra da sua meninice, e da vez que fugiu de casa. “Dez ou doze dias?”, perguntou a si mesmo. Dez ou doze; não lembrava. Mas importava? O que lhe veio na memória foi o doce gosto do perigo. Aos onze anos, conheceu Marco na escola. Brincavam juntos e de maneira pouco inocente, deram ali o primeiro beijo. Um dia, Marco lhe propôs uma pequena aventura. Juntos, seguiram a linha férrea que cortava o bairro. Passaram por construções, vilas e estações. Atravessaram a pequena ponte de concreto que saltava o rio. Ana viu um mundo novo, diferente. Uma semana depois voltaram: a mãe chorava no quarto e o pai esperava sentado na porta da casa. Como sempre, ele não lhe disse uma palavra – aliás, Ana contava nos dedos às vezes que havia conversado com o pai. Do episódio da fuga, até hoje lembra da expressão daquele rosto, da cor amarela da cadeira e do grito da mãe quando ouviu sua voz.
Já um pouco mais velha, foi viajar. Sem dinheiro. Escorrendo suor entre as pernas e bebida lhe pingando dos lábios rosados. Voltou só quando o pai morreu. Chorou, mas só naquele mesmo dia. Por sua causa, amava o desassossego. Alugou um apartamento na cidade. Vivia assim, como que levando: às vezes tinha companhia, outras não.
A garrafa de pinga em cima da mesa, o café, o cigarro.
Sem saber porque, naquela noite Ana, lembrou daquele dia. Os ruídos da noite a incomodavam. desligou a TV. Puxou o lençol para junto do corpo. Virou de lado. Tapou os ouvidos com as mãos.

“A campainha tocou?” se perguntou em silêncio.

Estremeceu da cabeça aos pés. Abriu os olhos e as sensações lhe tomavam todo o corpo. No quarto escuro, as imagens se formavam na fumaça que pairava no ar. Podia ver como se fosse hoje. Como se vivesse novamente aquele momento. Marco estava na porta do apartamento. “Eu estava de ressaca”. Nas mãos do homem, duas malas e um envelope. Ana não o via a uns bons anos, mas ainda o reconheceu. Abriu a porta. Apenas o olhou nos olhos. Todos os homens do mundo desapareceram. Havia apenas Ana, a porta, e Marco. Ana balbuciou algumas palavras.
Mas o homem caiu de joelhos e chorou. Apenas levantou as mãos com o envelope, como uma oferenda. Marco lhe agarrou as pernas. Ana abriu a carta. Um exame. Ele corre os olhos pelas palavras impronunciáveis. Chegando ao final, entendeu. Ele estava condenado. Não ia mais andar. Doença degenerativa. Batata. Ana não sabia o que fazer. Marco entrou sentou no sofá e tropeçava na ordem das palavras. Tremia como uma criança perdida. Ana não entendeu. Num estalido, olhou as malas. Ficou pálida. “Ele quer morar aqui” pensou.

“Ele mora aqui a 18 meses, 4 semanas e 2 dias”, refez as contas de cabeça.

Ana levantou-se. Seu coração era esmagado com a força. Seu estômago doía. Foi tomar um banho, não agüentava mais. Abriu o chuveiro e ascendeu outro cigarro. O ar quente enfumaçou o espelho. Via apenas a silhueta do seu reflexo. Entrou na banheira com a água. Apagou a luz e pegou a bucha. Se esfregava com força. De sair sangue. A água tornou-se de um rosado rubro. Ofegante e sozinha. Uma pausa. Ouvia apenas a disritimia sincopada de sua própria respiração.

“Acabou a água”.

Fechou os olhos e adormeceu.
Era de madrugada ainda. Ana saiu molhada do banho. Nua, caminhou até a cama. Viu o corpo imóvel de Marco. Ele dormia profundamente. “Dopado de remédio”, pensou. Ana segurou a mão grande e fria. Com um joelho sobre a cama, mas ainda de pé, fez com que aquela mão percorresse todo o seu corpo. Deslizou-a por entre os seios. Acariciou os mamilos. Desceu até a boceta.
Ana gemeu alto e desmaiou - misto de prazer e cansaço.

(...)

O despertador apita. 7:00 da manhã. Ela se levanta e vai preparar um café. Não há uma noite que ela não pense a respeito. Ana vai até a porta do quarto. O corpo imóvel de Marco repousa por entre os lençóis azuis encharcados de suor. De repente, uma virada de cabeça, ele olha para ela, com a cabeça, um aceno. Ele se vira sem falar nada.

“Até quando?” - ela pergunta baixinho, enquanto lava a louça.

Um suspiro surdo. Ela baixa a fronte. Olha no relógio e sorri.

Foto por Thiago Zati

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Mais reflexões acerca do manifesto da 23 de maio.


Primeiramente gostaria de ressaltar que o blog da Revista Apes, assim como a própria revista digital é produzido por um coletivo de pessoas, com opiniões muitas vezes divergentes e que a partir das discussões e reflexões tentamos alcançar a espinha dorsal das questões abordadas, não para produzir consenso, pois afinal de contas sociedade é conflito, mas sim para produzir um dissenso crítico.


Eu não pretendia escrever a respeito das ações que ocorreram na 23 de maio no último dia 13 de setembro, mas tendo em vista a polêmica gerada em torno do post do meu amigo e co-produtor deste blog T. Cutovoi, eu resolvi postar uma breve reflexão acerca dos acontecimentos, para mostrar exatamente a pluralidade de idéias dentro deste coletivo símio.


Procuro pensar a arte sempre numa perspectiva político-social, até porque não tenho formação técnica em artes, pois minha formação é em sociologia, deste modo, a minha avaliação não tem tanta ênfase na discussão estética proposta pelo meu colega T. Cutovoi, apesar de concordar com ele neste ponto.


Primeiramente é preciso tentar compreender o que é hoje a tal street art e qual a sua relevância político-social, quais as forças que estão em jogo neste meio? A street art como conhecemos hoje, enfatizando principalmente o grafite e seu irmão maldito a pixação, tem o seu embrião nas manifestações políticas dos anos 60 (pixações) e a partir daí houve uma revolução através de Basquiat e outros artistas, para uma arte mais conceitual e técnica (grafite). Nos anos 80 este tipo de manifestação estava diretamente relacionada com as culturas que começavam a emergir nas periferias, principalmente dos EUA, e tinham uma relação direta com a contestação em relação à apropriação do espaço público, além é claro da auto-promoção dos grafiteiros e pixadores, até então marginalizados. Bom, podemos concluir que a street art, antes de qualquer coisa, é uma manifestação política, mas hoje encontramos esta manifestação totalmente deturpada na maioria das vezes. No mundo do capital, tudo se transforma em mercadoria e toda forma de contestação acaba mais cedo ou mais tarde sendo enlatada e vendida para nós em caixinhas coloridas com o rótulo de “última tendência” dentro das vanguardas culturais. A street art hoje é isso. É a última tendência. É o que há de mais descolado e pseudo-subversivo. Talvez a exceção seja a pixação, por ser algo feio e sujo, que realmente se contrapõe à lógica de mercado, pois não tem valor de troca. Mesmo inconscientemente, a pixação contínua sendo a pedra no sapato do tal cinza da cidade.



Esse ativismo todo que cerca o manifesto da 23 de maio, como a maioria dos ativismos contemporâneos são apenas fetiches da ação, pois pensar radicalmente aquilo que se faz se torna algo secundário. Dizer que as ações de street art visam levar a arte para quem não tem acesso a ela, só demonstra a lógica vanguardista e conseqüentemente hierárquica dos grupos envolvidos, ou seja, o discurso não passa por uma reflexão crítica e resvala sempre no senso comum de vanguarda (iluminar as massas). Nem ênfase técnica, nem disposição para fazer, fazem da arte algo realmente contestador. E na minha opinião, arte se trata disso: contestação. A inclusão, o chamado à participação em tudo a todo o momento, pode ser tão perigoso quanto o apelo da publicidade ao desejo. O manifesto da 23 de maio usa exatamente esta lógica de inclusão, onde todos (os grafiteiros) em nome de um só ideal se mobilizam de forma estéril para contestar o tal “cinza da cidade”. Vemos ai toda a reprodução dos modelos mais não-criativos de ação, vanguardismo e centralização. Os street artists, parecem não conseguir pensar fora deste modelo e é ai que se encontra o problema, pois se a arte de rua que sempre teve como principal característica a inovação, a descentralização baseada na liberdade de iniciativa dos artistas e principalmente a interação com os transeuntes numa perspectiva de contestação e reivindicação do espaço público, começa a reivindicar o colorido na cidade de forma coletiva e muitas vezes com coloridos bem ruins, é porque os artistas precisam voltar a refletir um pouco mais em suas ações. Ou seja, o problema não é o manifesto em si, mas sim a forma como ele foi idealizado, suas reivindicações, o conteúdo político por trás dele. A street art além de bela como reivindica meu amigo T.C., precisa tornar-se perigosa para voltar a ser atraente de verdade, e não apenas mais um hype gerador de lucros para uma meia dúzia de calhordas.


Imagem: Stencil do artista Banksy e Pixações na Bienal de São Paulo de 2009.

Reformismo ismo ismo! - Crítica ao Dia Mundial Sem Carro


A embalagem é bem bonita e elegante. Um laço vermelho bem grande. Tudo muito legal, afinal de contas, são todas bandeiras incontestáveis: a ecologia, o transporte público, a educação, a consciência. Quem, me diga, quem pode levantar o dedo e não apontar estas como questões absolutamente sensíveis e necessárias para a sociedade atual? Quem??

Desde 1998, quando 35 cidades francesas adotaram o Car Free Day, o dia 22 de setembro é reconhecido como o Dia Mundial Sem Carro. No Brasil, a patota começou no ano de 2001, e hoje mais de 100 cidades colocam o evento em suas agendas oficiais, e quase 300 ONGs trabalham para a promoção da data. No site oficial do evento (http://www.worldcarfree.net/wcfd/), está tudo lá: o por que do dia, o caráter educacional da iniciativa, a busca por uma crítica constante, a importância do transporte público, a retórica ambiental sobre o aquecimento global e tal. Muito bem, muito bem. Tudo muito bem amarrado, certinho, tin tin, por tin tin.

Mas é sempre aí que algo não encaixa. E é aqui que uma face cada vez mais triste do mundo se avoluma cada vez mais. A impossibilidade prática e teórica que temos de colocar os reais pingos nos is, de vermos as questões para além do bem e do mal. Nossa crítica, é quase sempre, superficial, e, porque não, (SIC!!) marxisticamente falando, reacionárias.

O Dia Mundial sem Carro pode ser entendido pelo conceito de “Pacificação”, ou seja, quando criam-se condições dentro da sociedade para que um tema que teria a possibilidade de explicitar a crise social em que vivemos são recondicionadas por noções que apenas aplacam estas tensões. este movimento que inundou os debates sindicais desde o século XIX na Europa e a partir dos anos de 1970 no Brasil.

Em sua quase totalidade, todas as ações críticas possuem aspectos muito “conservadores” em sua abordagem. “Conservadores”, porque a crítica nunca perpassa o capital. É impossível conviver em um mundo ambientalmente sustentável, sendo que nossa maneira de compreender e trabalhar o mundo é inexoravelmente destruidora e apropriativa.

Mas o pior lado da moeda não são “as malignas forças burguesas...” como gostam de dizer nossos amigos dos diversos movimentos Marxistas e Comunistas, cada vez mais ralos e acéfalos. O mais impressionante é o fato de uma parcela considerável de políticos e pessoas públicas colocaram o Dia Mundial Sem Carro como algo estratosféricamente inovador em sua prática, revolucionário em sua abordagem e necessário para o nosso estilo de vida. E aqui, movimentos sociais urbanos como o Critical Mass, ou seu filho tupi, o Bicicletada, acabam por se incluir em uma onda muito maior, onde uma série de ações articuladas e de caráter assumidamente reformistas capturam a “vibe” do momento. A incrível capacidade de adaptação do Estado capitalista a todas estas formas de manifestações coletivas é incrível, e jamais pode ser subestimada. Ao olhar para o Dia Mundial Sem Carro e ver Walter Feldman se perguntar via twitter se vai “pedalando ou de metro” para o trabalho amanhã, uma certeza eu já tenho: com esse grupo, eu não estou. Amanhã, vou a escola de carro. Só de pirraça.

Stanza & The Emergent City

Seguindo o debate crítico proposto por Thiago Cutovoi aqui na semana passada, creio ser importante pensar sobre rumos e acontecimentos em todos as esferas que os Apes da equipe se atrevem a meter o bedelho. Apresento uma adaptação minha de um texto de Luciana Gonçales, médica e estudante de Artes. As opiniões expressas no blog nem sempre arrebanham a opinião do coletivo, e sinceramente não damos a mínima com as discordâncias (inclusive entre nós mesmos). Com isso deixo a pergunta: Arte pode ter a internet como plataforma de criação?


“tento criar algumas obras de arte visual informatizadas pela análise crítica dos espaços da cidade.”

Stanza desenvolve seu trabalho com base em instrumentais tecnológicos. Muitas de suas obras são interativas sendo montadas como espaços de rede, instalações e performances. Ele também faz uso de plataforma virtual on-line, exibindo parte do que produz na Internet. Alguns de trabalhos foram apresentados no Victoria Albert Museum, na Galeria Tate Britain, no Mundo Urbano de Madrid, no Pavilhão New Forest Artsway, no Museu Haifa de Israel e no Festival de Exposições Novosibirsk. Também ganhou inúmeros prêmios desde meados dos anos 2000.

Seus trabalhos se orientam pelo rearranjo de bases de dados de forma interativa, onde as peças convidam o espectador a desenvolver uma ação direta com a obra. Muitas delas se estabelecem sobre arquivos de determinados mapas de dados, e desenvolvem interessantes “pinturas” virtuais, amparadas por interfaces de som, fundos multi-facetados que fragmentam-se, remodelando-se com o contato com o espectador. Esses dados de segurança, de tráfego e ambientais são alguns exemplos, para conceitos que o fazem pensar as relações entre os homens e dados de informação e a relação entre espaço virtual e real. Parte deles apresentam-se na Internet, onde as saídas das interfaces e visualizações podem ser realizadas em tempo real. Dessa forma, sua arte estabelece diálogo e entrecruza a arte, a ciência e a tecnologia de forma instigante.

Stanza explica que seu trabalho se desdobra em três vertentes. A primeira é a coleta, a segunda é a visualização e, em seguida a exibição. Onde segundo o próprio: “tento explorar a dinâmica de mudança da vida da cidade como uma fonte de criatividade e criação artística significativas metáforas. Uso de novas tecnologias e integro às obras da nova mídia para domínio público como parte dessa investigação em curso sobre a visualização do espaço da cidade”.

A referida investigação é o projeto “The Emergent City”, com o qual tornou-se bolsista do AHRC (The Arts and Humanities Research Council). A cidade emerge através de sons, movimentos humanos, poluição, vibrações e barulhos quotidianos, que são captados através de sensores, gravadores e outras tecnologias para serem reformulados e readaptados em forma metafórica pelo autor, que tenta provocar reflexões sobre a vida no espaço urbano.

House Runtime é uma que sintetiza bem as propostas de Stanza. Á partir do momento que a página se abre, somos apresentados a algumas formas circulares, que vão tomando características “celulares”, parecem plasmar um mar branco enquanto aos poucos uma trilha de sons quotidianos evoca um estourar, um pipocar dessa estranha forma de vida. As cores vão surgindo, ao mesmo tempo que um estranho mapa vai se delineado na tela. Números de coordenadas de sonho (que deduzo não serem aleatórios) vão surgindo. Na página algumas pequenas ilhas vão brotando e ao clicar do mouse estabelece-se a interação onde tanto imagens como trilha sonora são se transformando, em uma dança sem fim evocando o incontrolável ritmo da cidade. A obra ainda lista no canto da página, algumas palavras que podem ser clicadas e estabelecem relação de efeito com o que ocorre na imagem, a escolha das palavras (Simplicity, Complexity, Audacity, Elasticity, Toxicity, Chronicity, Tenacity, House e Electricity)exprimem claramente o caráter de urbanidade e um tipo de crítica metafórica deixada para quem se dispõe a interagir.
O web-site do autor é repleto de suas criações que nos apresentam as mais variadas e sofisticadas criações artísticas amparadas pelo suporte virtual. A impressão que fica é de que, por mais abstrato que possa parecer a Internet é um campo amplo e frutífero para o desenvolvimento de obras. Seja como meio, seja como ferramental. Apresentam-se também desafios uma vez que é necessário decodificar certos caminhos técnicos para a execução de idéias, por outro lado desafio é uma palavra extremamente prazerosa de se ouvir quando aliada à possibilidades ilimitadas.